# 17. Narrativas [cap. 2º]: Gente de Natal

Envolto em panos

Faltam 6 dias para o Natal! O espírito que nos envolve parece querer fazer-nos ‘nascer’ de novo, regressar às origens do que somos, regressar à bondade, à simplicidade, à fraternidade. No tempo em que aquilo que é Eterno se quer fazer Terra, aumenta em nós o desejo de ser eternidade, de sermos bons. Desejamos agarrar o tempo e enchê-lo com o que é divino, com o melhor de nós. No Natal, Céu e Terra confundem-se. Não há limites, nem muros, nem barreiras. A barreira do tempo cai:  com o Natal, com o nascimento de Jesus, Céu e Terra confundem-se.

A verdadeira gruta de Belém é o coração de cada um de nós, quantas vezes às escuras, fora da ‘cidade’ do nosso quotidiano, com acessos difíceis para lá chegar… Neste tempo de Natal arriscamo-nos espontaneamente a entrar nesta gruta que levamos dentro. Um caminho que em mim tem dado resultado para lá chegar é aquele de honrar quem me faz bem! Honrar a ‘minha’ gente de Natal! Estando deste lado do mundo, entre deslocados e refugiados, estou no meio daqueles que se assemelham aos pastores que são capazes de ouvir os anjos cantar “Paz na terra” e esperar para além do imediato.

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Algumas semanas atrás, no tempo da apanha do tomate, quis comprar uma caixa para poder fazer tomatada que me durasse o inverno. Um dia, ao ver um grupo de pessoas na apanha, parei o carro junto à estrada e aproximei-me para ver se lhes podia comprar a caixa diretamente. O grupo era uma família yazidi IDP que tinha arrendado aquele pequeno terreno e estava agora a recolher o fruto do seu trabalho. Sorriso para cá, sorriso para lá, acabámos a tirar fotografias uns aos outros com os telemóveis. Lá comprei uma caixa, despedimo-nos como se fossemos amigos de há longa data e no caminho para casa entrou-me uma enorme vontade de imprimir aquelas fotografias e voltar lá no dia seguinte.

Assim fiz. Não consigo descrever por palavras a surpresa, a alegria, a festa que os encheu quando entreguei a cada um várias cópias de fotografias onde entravam! Não dá para descrever! Despedimo-nos marcados para a vida apesar de só nos termos conhecido à beira da estrada. No dia seguinte partiam para outro sitio. Quando cheguei a casa, emocionei-me profundamente e não consegui conter as lágrimas. Não me dei conta de nada, mas enquanto ríamos e víamos as fotografias, um deles pôs outra caixa na mala do carro. Apesar de saber que não valia a pena, no dia seguinte, fui ter com eles. Como era de prever não estavam… entrei pela plantação a dentro, já sem nada para apanhar, e ali no meio daquele verde, ao lembrar-me do filme Campo de Sonhos, desejei que aquela família conseguisse alcançar os sonhos que tivesse.

Deraloq fica longe! Fica a uma hora de Araden. Vive lá uma grande comunidade de refugiados sírios. Da última vez, fui com as nossas equipas fazer visitas.  Encontramos uma família constituída por avós e 3 netos que vivia num abrigo sem portas, nem janelas com um ‘telhado’ feito de lona, junto ao gerador da vila! O fumo e o barulho cada vez que o gerador funcionava eram insuportáveis!

Durante o tempo que estivemos com os avós e uma pequena neta, o gerador não parou de funcionar… a tom da conversa foi aos gritos, apesar de ser mais do que amigável, e o ar que respirámos encheu-nos a garganta com o sabor do cheiro do gasóleo! Contaram-nos que se tinham mudado para ali há ano e meio… A pequenita, com sete anos, não ía à escola… histórias familiares complicadas que tentámos mediar para que a criança toda espevitada que conhecemos pudesse usufruir do direito à escolaridade obrigatória…

No dia seguinte, regressei a Deraloq com o Sardar. Não consegui dormir naquela noite… Chegámos lá às 10h e às 14h30 as portas estavam a ser colocadas. Não só a da rua como as de dois quartos. A avó sentou-se a observar tudo enquanto as colocavam, sentei-me ao lado dela… olhou para mim com uma expressão de puro agradecimento… agarrou-me o rosto com as suas mãos ásperas e frias e fez-me duas, três, quatro festas… Enquanto que a expressão do seu rosto adquiria um olhar de ‘que descanso!’ e de uma espécie de porto abrigo, de paz, o meu ‘coração’ enchia-se de vergonha e de silêncio. Como é possível permitirmos tantíssima desigualdade entre nós e continuarmos os mais sortudos a viver descansados? Uma semana depois a pequenita espevitada unia-se  toda contente aos seus irmãos a caminho da escola com a mochila às costas.

Nessa mesma vila, vive outra família refugiada síria. Pai, mãe e cinco filhos. A filha mais velha é portadora duma deficiência mental e o ter estado sobre constante bombardeiros durante mais de dois anos na Síria tornou-a muito assustadiça e medrosa. Dificilmente olha de frente as pessoas que não pertencem ao núcleo restrito da sua família. Durante a visita, o pai, sem nunca deixar de falar connosco, cada vez que uma das duas pequenitas fazia alguma pequena coisa, olhava-as com uma tal quantidade de amor que me impressionou! Sem se mexer, sem deixar de nos responder, simplesmente seguia-as com um olhar de profundo amor.

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Ao princípio, pensei que a mãe fosse só extremamente magra. Não é incomum por aqui! Os refugiados sírios padecem dificuldades acrescidas já que o governo curdo não lhes permite ter um emprego. Vão sobrevivendo com a pouca assistência que recebem e pequenos biscates que conseguem encontrar. Ao agarrar a chávena de chá que me oferecia, reparei que os ossos das suas magras mãos estavam deformados… Sofre de reumatismo agudo, não vê um médico há quase dois anos, continua a tomar a medicação que então lhe receitaram sempre que têm dinheiro para a comprar. O marido diz-nos que a mulher é a pessoa mais importante da sua vida! … e cada vez que ela não se consegue levantar de manhã por causa das dores, ele não só não pode ir trabalhar se tiver encontrado um biscate, porque tem que ficar a tomar conta dela e das crianças, como ‘parece que sente as dores que ela tem e não as aguenta’. O inverno nestas montanhas é muitíssimo duro! Facilmente chegamos aos 15 graus negativos. Continuo sem conseguir perceber como é que aguentam naqueles abrigos feitos de blocos de cimento onde o frio e a humidade são rei e raínha no seu palácio! Mesmo que tivessem médico especialista a quem recorrer era-lhes impossível ir à consulta por não terem dinheiro para o transporte. É muito caro! E comprar os medicamentos é muito dispensioso. Como não há farmácia, paga-se a um motorista para que os compre em Dohuk e os traga. Entretanto, e enquanto o pai toma conta das crianças, a mãe já veio três vezes à consulta dum especialista em Dohuk, a medicação já foi reajustada, e confirmada após ela a estar a tomar durante uma semana, e ao amor que enchia o ambiente naquela família juntou-se uma grande pitada de esperança antes de o Inverno chegar.

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Mais longe do que Deraloq fica Sheladze. Também aí encontramos refugiados sírios e não deslocados de outras zonas do Iraque. Para lá chegar precisamos de hora e meia de carro. Nas visitas que fomos fazendo percebemos que muitos deles estavam realmente interessados em aprender inglês. Tínhamos que tentar encontrar um professor e um sítio onde montar uma ‘sala de aula’. Encontramos primeiro o professor. Um jovem refugiado sírio, licenciado em Inglês pela Universidade de Damasco, com um notório amor pela língua e pelo ensino, mas desde o momento em que fugiu e atravessou a fronteira tem feito de tudo menos dar aulas de inglês. Agora faltava encontrar o sítio! Um senhor, cristão, que já tinha ali acolhido uma família síria durante mais dum ano, ofereceu-nos o espaço, comentando-nos que não fazia mais do que a sua obrigação! Depois de termos dado um pequeno ‘toque’ no que se transformou em sala de aula, as aulas de inglês vão começar no próximo dia 7 de janeiro para dois grupos de 20 pessoas.

Não são só os adultos que percebem o valor da educação. Admiração e carinho foi o que senti quando uma rapariga de 16 anos, deslocada e yazidi, veio ter connosco a pedir se lhe podíamos comprar o uniforme. Não podia continuar a ir à escola porque não tinha uniforme. Quando lhe perguntei se tinha irmãos. Disse-me que tinha uma irmã. Perguntei-lhe se também  ela não estava a ir à escola. Respondeu-me que estava a ir porque a sua irmã tinha uma amiga que ia no horário da manhã e que como o dela era de tarde tinham combinado que assim que a amiga regressava das aulas despia o uniforme, ela vestia-o e seguia para a escola! … Mas ela não podia fazer o mesmo porque não tinha uma amiga com quem pudesse combinar este esquema. Todas as suas amigas frequentavam também o horário de tarde. Ambas as irmãs quiseram fotografar-se com os seus novos uniformes ‘pessoais’ e, possivelmente, transmissíveis se houver alguma rapariga que não o tenha e frequente o horário da manhã!

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Termino com uma visita que fiz e foi como se tivesse estado em casa, junto aos meus. Muitas das famílias yazidi que acompanhávamos em Iniske mudaram-se para o Campo de Daudia. Uma dessas famílias convidou-nos para a visitar por ocasião da celebração do primeiro aniversário do falecimento dum irmão, peshmerga, morto em combate dois meses depois de se ter casado. O campo é constituído por inúmeros contentores  como se de um enorme estaleiro se tratasse. Há muito tempo que não passava um sábado tão ‘bom’! Fomos acolhidos como se de membros de família se tratasse. Contaram-se histórias de dor e de alegria, partilharam-se fotografias, também daqueles membros da família  raptados pelo DAESH e que ninguém sabe onde estão, provocaram-se as crianças para que nos enchessem de vida, conhecemos os membros alargados da família que também ali estavam para celebrar a memória daquele familiar e irmão. Não nos deixaram partir sem almoçar com eles.

Agradeceram-nos a visita como se fossemos Reis vindos do Oriente, mas no nosso coração o que experimentavamos era a pequenez que ‘real’mente somos diante da grandeza e dignidade que eles possuem apesar de viver em ‘grutas’ escuras fora da cidade!

Penso que ninguém o tentará negar, há gente de Natal aos montes por esse Mundo fora! A todos: Feliz Natal! Feliz Ano Novo!

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# 16. 4 meses numa única crónica

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Não escrevo há tanto tempo que foi dificil encontrar a melhor forma de retomar aquilo que, para mim, começa a ganhar peso de memória futura. Aconteceram muitas e variadas coisas cujo denominador comum é o de terem sido, serem, significativas. Pelo menos foi assim que as vivi e é assim que as considero.

Uma das mais relevantes foi termos organizado aulas de apoio para os alunos de 12º ano da escola Al-Etihad durante os meses de maio e junho. O nome Etihad corresponde à palavra árabe «união» (الإتّحاد al-ittiḥād). Durante a manhã, esta escola funciona com o currículo do Curdistão para os alunos da região. Mas, de tarde as salas são ocupadas  por crianças e jovens deslocados e o currículo que se administra é o do Iraque, do governo central. A finais de abril, este ano foi a 26, o ano letivo termina para os alunos do 12ºano esperando que estes fiquem em casa a preparar-se para os exames nacionais que começam a inícios de julho e lhes permitirá entrar ou não na universidade.

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Ora, não é preciso ter o bichinho da educação no coração, como tenho, para ter por adquirido que os alunos que tenham mais dificuldades vão ter dois meses muito, muito difíceis e vão ser tentados muito facilmente a desistir das horas de estudo pessoal que se propuseram. Assim, fomos ter com a escola e com o seu claustro de professores oferecendo-nos para os apoiar. A relação de parceria foi extraordinária!

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Conseguiram da Delegação de Mosul do Ministério de Educação, com sede temporária em Dohuk – Curdistão por causa do DAESH, a autorização para a realização de aulas extraordinárias de reforço em três das matérias mais difíceis para os alunos: árabe, matemática, inglês.

Uma das dificuldades acrescidas para as crianças e jovens de famílias deslocadas é a qualidade do ensino. É difícil ter acesso a bons professores, a manuais, etc. Foi o que aconteceu com estes 56 alunos a quem pudemos dar a mão. Os professores que tiveram durante os últimos três anos ‘foi aquilo que se arranjou’. Conseguimos encontrar 3 muito bons professores em Dohuk que se dispuseram a ir três vezes por semana a Sersink – 50 km de distância – onde fica a escola Al-Etihad e trabalhar intensamente com aqueles 56  raparigas e rapazes deslocados – muçulmanos, yazidi e cristãos.

Sem o querermos, também estes professores professavam religiões diferentes: o prof. de Árabe era muçulmano, o prof. de Matemática yazidi e a profª de Inglês cristã. Naquilo que temos realizado, as sessões e sensibilizações de Peace-Building and Reconciliation acontecem na vida do dia-a-dia, enquanto se espera que os políticos se ponham de acordo e estimem mais a vida dos seus do que outros interesses quaisquer que eles sejam. Desculpem, foi um desabafo. Do que me tem sido dado viver afirmo que a gente comum tem um coração muito mais magnânime do que nos querem fazer crer.

Foram dois meses de enorme vida, trabalho, alegria e dedicação! A verdade é que no início, havia uma certa preguiça e desinteresse por parte da maioria dos alunos, mas com o decorrer das aulas dadas por estes três professores extraordinários, tanto na matéria como como pessoas, a vontade de se apresentarem preparados a exame começou a tomar conta deles! O ambiente, cada vez que os visitava, era de trabalho e de coragem! Um desses alunos escreveu: “We thank you very much for your support to us and to our studies. We thank the professors for their efforts and support for us morally and drastically. Perhaps we will not have a chance like this again. But thanks to them we had it now and we surpassed our capacity for studying. We have a new hope in having success now and also in our future life. Thank you So much.”.

Quando no último dia nos despedimos o nervosismo era visível nos seus rostos e sentíamos neles o intenso desejo não só de passar mas de alcançar boas notas. Encheram-me com um obrigado sentido em maiúsculas em cada aperto de mão e abraço que me deram ao desejar-lhes ‘boa sorte!’. Os três magníficos professores não paravam de agradecer termos feito isto por estes jovens quando a única coisa que nós sentíamos era exatamente ao contrário: que privilégio termos podido acompanhar, servir e defender com tão pouco… Um desses professores escreveu na avaliação que fizemos: “JRS provou que humanidade e bom trabalho são a base da Vida”.  Como escrevo tantos meses depois posso dizer que os resultados dos exames já saíram. Não tem um final totalmente feliz, mas é sem dúvida muito, mas muito mais feliz do que o do ano passado.

A finais de Junho e no início de Agosto tivemos em Sharia e em Araden respetivamente as Graduation Ceremonies para todos aqueles adultos que frequentaram com distinção (!) os diferentes cursos de life-skills. No total foram 265 pessoas que receberam os certificados correspondentes à aquisição de conhecimentos que alcançaram! Não é dificil perceber que o valor daquele pedaço de papel representa muito mais do que os 3 meses de formação e as 6 horas por semana.

Aprender sem já ter idade para ir à escola, sair do abrigo que se transformou com o tempo numa toca, voltar a sentir a dignidade de ser gente, rir com vontade na companhia descontraida que se foi cirando com os colegas e com os instrutores, partilhar episódios de vida e de dor que todos conhecem, transmitir uns aos outros a força que vem duma esperança indelével que não se vê… como a fé… De tudo isto fui testemunha e foi tudo isto que celebramos no dia em que chamamos cada um pelo nome  e lhes entregámos com alegria o mais que merecido diploma.

E, de novo,  durante aquela tarde de festa venceram juntos os traumas, as angustias e os monstros que os assombram, dançando juntos (e eu com eles, que nunca danço!) até ser hora de regressar ‘a casa’ em amena cavaqueira.

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Vai longa esta crónica mas não posso terminar sem antes falar do referendo que aconteceu no dia 25 de setembro em todo o curdistão iraquiano. Desde sempre que o Curdistão tem anseios de ser independente. Lembro-me de quando conheci os primeiros curdos. Eram refugiados na Austria e deles fiquei grande amiga. Estávamos em 1979 e contaram-me o quão perseguidos e torturados eram por Saddam Hussein, sem direito a falar a própria língua, a celebrar a suas festas e costumes e a regularem a sua própria vida e região. Com a queda de Saddam conquistaram o direito a ser uma região autónoma. Região onde o DAESH nunca conseguiu entrar e para onde escaparam quase dois milhões de deslocados da planície de Ninive, de Mosul, de Qaraqosh, etc.

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O desejo sempre foi a independência e um ano depois de, por primeira vez na sua história,  se terem unido ao exército regular iraquiano para derrotar o DAESH e libertar o território do seu dominio, o presidente desta região autónoma, Masoud Bazarni, decidiu convocar um referendo sobre a independência do Curdistão. O partido no poder, o segundo maior partido e os pequenos partidos de minorias como a cristã, turcomanos, yazidi, manifestaram-se a favor e o maior partido na oposição considerou que não era o momento oportuno de o fazer, “No for Now”.

O ambiente nesta cidade onde vivo nas duas semanas anteriores ao 25.09 foi impressionante na quantidade de cartazes, outodoors, manifestações, buzinadelas e cortejos a favor do sim. O parlamento curdo, que não tinha sessão há mais de dois anos, reuniu e aprovou a sua realização. Iraque e países vizinhos não só condenaram a sua realização como anunciaram medidas ‘punitivas’. A comunidade internacional referiu que não era altura de criar algum tipo de tensão neste momento em que todos deviam estar centrados em vencer o DAESH. E apesar de tudo isto, o referendo foi avante. Dizem os curdos: “Todos nos querem como aliados em alturas de perigo, mas os curdos só temos as montanhas como amigos!”. O líder do partido da oposição no dia 25.09 depois de ter votado deu a conhecer que tinha vontado Sim. 76% da população foi às urnas. 93,6% disse sim.

Nesse dia, vinha de Araden e parei em Zawita onde uma multidão esperava para votar. Perguntei  a um dos polícias se podia fotografar. Disse-me que sim e perguntou-me se queria entrar e ver as mesas de voto etc.  Sem duvidar respondi-lhe imediatamente que sim! Lá dentro todos queriam que eu visse tudo! Que fizesse chegar ao meu país que tudo estava a ser realizado com a maior da seriedade e controlo.

Falei com algumas pessoas, jovens, adultos, anciãos… a vontade de poderem expressar o que querem provacava-lhes uma enorme alegria, apesar de saberem que essa independência não chegaria tão depressa. Fez-me impressão uma conversa que tive em Zawita com duas senhoras idosas: “Sofremos a vida toda, muito. Mas ainda vivemos para votar neste dia!”, e sorrindo mostravam-me os seus dedos indicadores manchados de tinta. Três dias depois do anúncio dos resultados, o governo central de Bagdade proibiu os voos internacionais para a região autónoma do Curdistão. A pressão e a tensão parecem estar num jogo de estica-encolhe… enquanto que a vida quotidiana silenciosamente continua.

Para quem chegou até aqui, que é o fim: os meus parabéns!

 

 

# 15. “1001 Mensagens para Mosul”

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O Gustavo Carona está neste momento a terminar uma missão humanitária num dos Hospitais  que servem a tão flagelada população de Mosul, integrado nos Médicos Sem Fronteiras (MSF).

Antes de vir para cá, o Gustavo teve uma inspiração que recebeu o apoio de centenas de pessoas e pode assim ser concretizada: um livro, escrito por gente portuguesa de boa vontade, com mensagens de esperança, solidariedade, fraternidade e paz para todos aqueles que aqui continuam com as suas vidas destroçadas.

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[https://www.editoraomega.com/product-page/1001-cartas-para-mosul]

Sem ainda nos termos conhecido – um dia acontecerá – recebi um convite inesperado do Gustavo para escrever um dos prefácios deste livro que, duma forma muito concreta, testemunha a imensa compaixão e solidariedade que habita as vidas e corações de tanta gente anónima,’sem nome’, contrariando e desmentindo slogans e preconceitos apresentados na praça comum como totalitários.

Pedi ao Gustavo autorização para publicar aqui o prefácio que escrevi. Por duas razões: porque considero um privilégio e uma honra estar a participar neste projeto e porque quero apoiá-lo tanto quanto puder. Uma das maneiras de o fazer é divulgá-lo.

Prefácio:

Neste último domingo, 7 de maio, o Sardar, um dos colaboradores do JRS (Jesuit Refugee Service) que se tornou num grande amigo, ofereceu-me, mal chegou ao escritório, uma caixa de doces muito particular e significativa. Sardar é um dos milhares de deslocados curdos (muçulmanos) que abandonaram tudo e fugiram quando o DAESH passou a dominar a cidade de Mosul e impôs uma lei e ordem próprias, violentas e desumanas, que não podem nem devem ser identificadas com nenhuma religião.

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Sardar tinha estado no dia anterior em Mosul. A sua casa fica na zona já libertada, onde a vida regressa pouco a pouco ao normal, apesar da destruição. Com os seus braços e mãos, fazendo um risco no ar, explicava-me como dum lado do rio  que atravessa a cidade, os casais voltam a andar de braço dado, as mulheres voltam a conduzir automóveis, as barbas desapareceram, os cigarros voltam a ser fumados, a animação e vida estão de volta às ruas… enquanto que do outro lado, logo ali à frente, à distância do olhar, a morte e o terror continuam a ser os seus principais habitantes… parece ser uma cidade vazia, onde não se vê ninguém nas ruas, apesar de milhares  de pessoas continuarem lá encurraladas sob o louco jugo do DAESH…. só se ouvem os morteiros, as bombas e os tiros duma luta que se espera que chegue quanto antes ao fim. À noite, num lado da cidade,  a iluminação, filha de geradores, vence a escuridão que torna invisível a outra parte querendo fazer-nos acreditar que o outro lado do rio não existe.

Neste lado do mundo vivemos apoiados em quase nada. Mas este  ‘quase nada’ tem sempre a ver com os toques da generosa humanidade entre gentes e, por isso, carrega a força simbólica do todo e do tudo, tornando-se na ‘arma’ que assegura, para além de qualquer dúvida, que  a loucura, o caos e a morte têm os dias contados. Não sabemos quantos dias, mas sabemos que estão contados!

O que o Gustavo está a fazer com este livro, escrito por tantos, tem tudo de ‘quase nada’! Posso testemunhar a esperança que gera saber que há outros, bem lá longe, que sabem o que ‘estamos a padecer e nos acompanham’! É impressionante ver o que o interesse sincero e preocupado de desconhecidos longínquos gera em fraternidade e proximidade no coração daqueles que se experimentam sós e esquecidos, encurralados.

Duas palavras tornam-se imensamente relevantes e imprescindíveis: acompanhar e esperança. Sabendo que acompanhar é muito mais do que estar ao lado e interessar-se. Acompanhar vem de “com panis”. É comer do mesmo pão, é sentar-se à mesma mesa, em definitiva, é ser família e a minha vida, natural e automaticamente, ficar alterada (alter/outro). Sabendo que esperança não tem nada a ver com otimismo. A esperança é a força que permite atravessar qualquer realidade e absurdo, é infinita; o otimismo é apenas o desejo de que as coisas mudem e se elas não mudam a porta fica aberta para o desespero, é finito.

“1001 Mensagens para Mosul”. 1001 expressões de quem se importa e acompanha. 1001 certezas de proximidade e de esperança. 1001 vidas necessariamente também alteradas.

Irene Guia,aci – 12 de maio de 2017 – Dohuk, Curdistão no Iraque.

Atrevo-me a desafiar quem me vai acompanhando a integrar este ‘movimento’ de bondade e compaixão, adquirindo este livro fora do comum, através do site da editora, na FNAC ou na Bertrand, sabendo que a totalidade do valor alcançado reverterá a favor da MSF e da PAR.

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# 14. Vi um novo céu e uma nova terra!

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Não escrevo há tanto tempo que não sei bem por onde começar. Os meses de abril e maio estão a ser muito intensos. As atividades multiplicam-se e, por cada uma delas, os sorrisos também! Mais de 220 pessoas deslocadas frequentam os cursos de três meses que começamos a abrir a partir de 3 de abril. Inglês, Costura, Computadores, Música e Curdo enchem de vida o Centro que até há bem pouco tempo era um edifício fechado e sem utilidade.

Os primeiros cursos, no âmbito da educação não formal (life skills) foram o Inglês e o Laboratório de Informática. No dia 3 de abril chegavam de autocarro ao Centro as primeiras 50 pessoas deslocadas (cristãs, yazidi e muçulmanas).

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Apesar da chuva torrencial que caía, e que parecia ser estratégia do inimigo, todos estávamos verdadeiramente animados porque dávamos início a mais uma forma de acompanhar, servir e defender todas estas vidas que têm sido sistematicamente atingidas por tantos golpes e feridas.

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Ao ver entrar pela porta adentro toda aquela gente, um dos membros da equipa do JRS Araden, veio ao pé de mim e disse-me emocionado em baixa voz: “Sister, visitámos todas estas pessoas nos seus abrigos e as expressões dos seus rostos eram fechadas, arrastadas, pesadas… olhe para elas agora! Não há nenhuma que não tenha um sorriso estampado na cara!”. Olhei para ele e acenei com a cabeça… não conseguia falar naquele momento. Chega a doer de ‘bom’ ao ver tanta esperança, por tão pouco, espelhada naquelas caras. Faz impressão o que se sente quando um grupo, que mal se conhece, se encontra animado pela esperança! Não há tempo nem fronteiras. Parece que só existe o presente, que é bom e comum a toda a gente, que une sem nenhuma razão especial. Talvez a única explicação possível para esta experiência de mutua pertença aconteça porque nos encontramos, juntos, com a vida e a esperança.

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Nesse dia não só apareceram os que estavam inscritos como apareceram mais 40 pessoas que vieram sem o terem feito! A confusão naquela casa foi enorme! O início das aulas foi caótico mas, quem é que se atrevia a importar-se? Ninguém!!! Muito antes pelo contrário. Ficámos com os nomes e os contactos de todos os que meia hora depois estavam estrada fora a regressar a casa. Uma semana depois estávamos a abrir mais dois grupos!

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Entretanto, montámos uma sala de costura! Dez máquinas para aprender, uma mais profissional, uma grande mesa no meio, uma instrutora (muçulmana) com uma assistente (yazidi), tecidos, tesouras, fios, papel de jornal e dois grupos de 20 mulheres (cristãs, muçulmanas e yazidi) com uma enorme vontade de aprender e costurar!

Todos os dias de manhã, o centro enche-se de vozes muito animadas, todas elas femininas, que parecem cantar enquanto medem, cortam e cozem! Um ambiente que impossibilitaria adivinhar os verdadeiros dramas pelos que todas elas passaram, e que muitas ainda os vivem, não fosse elas irem-nos contando pouco a pouco a dor que as acompanha. Algumas crianças vêm com as mães. Queremos que seja assim, porque ser mãe significa cuidar e não deixar sozinho quem dela precisa. Se não as trouxessem , por muito que quisessem continuar, acabariam por deixar de vir.

Uma dessas meninas, 10 anos, veio viver com a irmã mais velha, que frequenta o atelier de costura, faz agora 3-4 meses. Deixou de falar. Não olha diretamente para ninguém. Baixa a cabeça ao passar. Esteve sequestrada pelo DAESH durante os últimos dois anos e meio… Mas, adora desenhar! Demos-lhe umas folhas e uns lápis de cor e enquanto a irmã criava  uma pequena peça de roupa, ela inventava desenhos que coloria… A máquina fotográfica pode ser um privilegiado meio de ligação entre dois estranhos, sobretudo com as crianças. Aproximei-me e pus-lhe a máquina ao pé. Gesticulei como podia a intenção de que ela mesma tirasse fotografias… não lhe tocou… tirei, então, uma fotografia às suas mãos enquanto desenhavam e mostrei-lhe… o coração mirrou-se-me ao ver aparecer um leve sorriso naquela criança que deixou de o conseguir fazer e que é absurdamente incapaz de olhar para os outros com a confiança natural dos pequeninos.

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Estes grupos de mulheres fazem milagres! Permanentemente! Até o milagre de me convencerem a vestir os trajes tradicionais curdo e yazidi e uma delas me emprestar uma encharpe  para cobrir a cabeça!!! A verdade é que não se tiveram que esforçar muito. ‘Tá-se bem’, muito bem naqueles grupos. Foi mais uma sessão de risos e gargalhadas, de incentivo e brincadeira, de fotografias e amizade!

Quando preciso de descansar… vou ter com elas e por ali fico desfrutando do que vejo… descansa! E acredito que, apesar da balburdia das tesouras, tecidos e máquinas, elas também!

Ñeste momento, são 12 os grupos. A maior parte em Araden, mas também já noutras povoações. Mais de 220 pessoas que cumplicemente sorriem quando me vêem e que provam que nesta história de acompanhar há «ir e voltar». Há o sentir-me por elas acompanhada. “Com-panis“, comer do mesmo pão. Assim seja.

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# 13. Narrativas [cap.1º]

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Dois pequenos relatos de vida que hoje tive a honra de ouvir e de conhecer.

Através das visitas que fazemos às famílias deslocadas, conhecemos uma jovem mulher, mãe de cinco filhos, viúva há 6 meses, sem nenhuma fonte de rendimento. Vivem junto ao abrigo do cunhado que também não tem muito com que subsistir, ele e a sua própria família. Vive do que o cunhado lhe possa dar em cada dia.

Há uns tempos atrás, lembrei-me que em vez de contratar uma senhora da limpeza a meio tempo, previsto no orçamento do projeto, poderia ir ‘repartindo’ essa verba por inúmeras situações de extrema pobreza que vamos encontrando.

Hoje pedimos ajuda à Goze, mãe viúva yazidi de 5 filhos, que viesse ajudar-nos na limpeza do Centro. Ao principio, o filho mais velho de 20 anos não queria que a mãe viesse trabalhar – questões culturais -.

No entanto, lá se reconciliou com a ideia ao ver a vontade categórica da sua mãe em querer trabalhar. Por fim, acabou por  ficar connosco o dia todo. Um rosto lindo que se iluminou quando Hidnya (a senhora contratada pelo JRS a tempo inteiro e que trata de manter o Centro impecável) lhe indicou as salas que teria que limpar. Expressava esperança e suave alegria. Não creio estar a tentar ver o que não era. Um rosto que ficava ainda mais magnífico cada vez que sorria.

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Almoçamos juntas e a conversa entre três pessoas que não possuem uma lingua na que se possam encontrar sem  MUITO, MUITO esforço, foi fluindo… Vieram de Sinjar, perderam tudo, não sabem de muitos dos seus familiares… há 6 meses o marido morreu de cancro… vivem sem nada… fez-me impressão porque comeu pouquíssimo e não penso que tivesse sido por vergonha… Num momento de mulheres , tiramos fotografias para partilhar com as famílias. As selfies aqui são apreciadíssimas e a Hidnya não deixou escapar mais uma oportunidade! Fiquei de imprimir uma cópia para a Goze e de lha levar quando a for visitar a ‘casa’.

Depois do almoço, cada uma continuou com o seu trabalho. A Hidnya e a Goze voltaram  para o rés do chão e para o que ainda tinha ficado por limpar e eu para o que pensava ser a  entrevista dum possível professor de música mas que se transformou noutro relato de vida.

O seu nome é Ryan Bhnam Kaml. Músico de formação, violinista por paixão. Cristão de Mosul, IDP em Bardarash. Fiquei completamente ‘vidrada’ nas suas mãos! Sujas, calejadas e arranhadas… brutas!

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Tudo ao contrário do que me tinha imaginado. Muito diferente das habituais ‘virtuosas’ mãos! Pareceram-me de imediato mãos de agricultor…

Chegou com o seu violino e poisou a caixa na primeira cadeira que encontrou. Mas, quando ela foi precisa, retirou o estojo da cadeira e poisou-o só então no chão. Um pequeno pormenor que indica o cuidado para com aquela ‘caixa’.

É casado, tem dois filhos pequenos e, como milhares de outros, teve que fugir de Mosul. Como a música não dá de comer começou por passar muita fome e muito frio desde que aqui chegou há dois anos e poucos meses. Licenciado pelo Instituto de Música e Artes de Mosul  – Violino, conseguiu um trabalho numa garagem e aprendeu a ser mecânico.

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Falamos um pouco mais, abriu a caixa, tirou o violino, afinou-o com a ajuda dum lá-diapasão que saía dum apito redondo metálico e começou a tocar…

Fechou os olhos e o violino parecia chorar… Abri a porta do gabinete porque na sala ao lado estavam os oito elementos da equipa… o silêncio nosso acolheu a expressão do Rayan no choro do violino… [ desfrute aqui: https://youtu.be/KnvT8nelIPY]

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Creio que ficámos todos com os olhos bastante enevoados. Irá começar connosco no próximo dia 4 de Abril como professor de música e com o objetivo de criar um coro com 18 voluntariosos cantores!

Perguntei-lhe se podia partilhar o video com amigos e família… sorrindo, até nos olhos, AGRADECEU-ME que o fizesse!

Não consigo apagar da minha memória o estado das suas mãos…

 

# 12. Newroz pîroz! [Ano novo no Curdistão]

 

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Without the light and the fire of Love,
Without the Designer and the power of Creator,
We are not able to reach Union.
(Light is for us and dark is the night)
This fire massing and washing the Heart,
My heart claim after it.
And here come Newroz and the New Year,
When a such light is rising. – Melayê Cizîrî (1570-1640) poeta curdo

Hoje, 21 de março, estamos em Festa!!! Newroz é a celebração curda do feriado de ano novo persa “Nowruz.” O Newroz coincide com o equinócio de Primavera, e é um festival que comemora o começo da primavera. Ao longo dos anos, Newroz veio a simbolizar novos começos, assim como uma oportunidade anual para apoiar a causa curda. Por estas razões, Newroz é considerado o festival mais importante na cultura curda. Estes ano as festas decorrem desde ontem à noite até ao dia 23 de março. O Newroz é celebrado há pelo menos 3000 anos e está profundamente enraizado nos rituais e nas tradições do Zoroastrismo.

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Durante estes dias, como qualquer outra tradição secular que se preze, há pratos típicos, fogos de artifício, danças, recitais de poesia, saltar à fogueira e, sobretudo, picnics em família desfrutando da natureza e apreciando o romper da Primavera! Estreiam-se roupas novas e, pelo que percebi, partem-se peças de loiça para desejar boa sorte.

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Ontem à noite quando se começaram a acender fogueiras por toda a parte, a lançar fogo de artíficio em praticamente todos os bairros e a ver balões tipo S. João do Porto no céu, não pude deixar de pensar nos nossos Santos Populares.

No entanto, esta festa em particular, associou-se fortemente à causa curda. Nada como uma muito antiga lenda iraniana para o explicar!

Zarah, a quem os curdos chamam por Zuhak, foi um rei assírio que conquistou o Irão. Era tão muito mau que serprentes cresciam dos seus ombros! O seu reinado durou mil anos e foi tão tirânico, desumano e maligno que a Primavera deixou de vir ao Curdistão!

Durante este tempo, Zarah ordenou que dois jovens fossem sacrificados diariamente e os seus cérebros fossem oferecidos às serpentes de Zarah para aliviar a sua dor. No entanto, o homem que foi incumbido de sacrificar os dois jovens todos os dias, sacrificava apenas um e misturava o seu cérebro com os de uma ovelha, a fim de salvar o outro jovem.

O descontentamente crescia contra o governo de Zarah. O nobre Fereydun planificou uma revolta que foi liderada por Kaveh, um ferreiro que tinha perdido 6 filhos nos sacrifícios de Zarah. Os jovens que tinham sido salvos desse mesmo destino que, segundo a lenda eram os antepassados dos curdos, foram treinados por Kavah e formaram um exército que avançou para conquistar o castelo de Zahak e onde Kaveh acabou por matar o Rei com um martelo. Conta a lenda que nesse momento Kaveh terá ateado fogo às encostas para comemorar a vitória e para convocar os seus apoiantes.

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A Primavera regressou ao Curdistão no dia seguinte!!! 

20 de março é tradicionalmente marcado como o dia em que Kaveh derrotou Zahak. E ontem à noite, ao final da tarde, no meu regresso de Araden a Dohuk,  eram muitas as encostas ateadas, as fogueiras acendidas e os fogos de artifício a encher o céu.

Esta lenda é agora usada pelos curdos para se lembrarem como eles são um povo diferente e forte. A luz das chamas das fogueiras tornaram-se desde então um símbolo da liberdade pela que lutam. É, por isso, que esta tradição do saltar à fogureira tem também tanta força no Newroz. Ontem à tarde chuvia desalmadamente! Perguntei aos membros da nossa equipa se mesmo assim iam acender fogueiras e fazer o ‘fogo’: “Como não! O espírito curdo não se vai abaixo com tão pouco!”

 Newroz pîroz! Feliz Ano Novo!

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Para quem tiver interesse, algumas notas sobre o Curdistão:

Curdistão, também denominado Grande Curdistão, é uma região geocultural com cerca de 500.000 km² e estende-se na Turquia, Irão, Síria e Iraque. Em dois destes países, o nome também se refere a unidades administrativas internas: a província do Curdistão no Irão e a Região Autónoma Curda no Iraque. O nome Curdistão é de origem persa e significa “a Terra dos Curdos”. Foi assim chamado por primeira vez pelo sultão Sandjar, em 1150, para designar a parte ocidental do Irão povoada pelos curdos. Atualmente, os curdos são cerca de 26 milhões de pessoas, na sua maioria muçulmanos sunitas, que se organizam em clãs e que falam a língua curda. Constituem a nação sem Estado mais numerosa no mundo.

No Iraque, os curdos liderados por Mustafa Barzani, lutaram contra os sucessivos regimes iraquianos entre 1960 e 1975. Em março de 1970, o governo iraquiano anunciou um acordo de paz que contemplava a autonomia curda, a ser implementada durante os 4 anos seguintes. No entanto, ao mesmo tempo, o regime iraquiano iniciou um programa de arabização nas regiões ricas em petróleo de Kirkuk e Khanaqin.

A partir de 1971, entraram em vigor medidas duma campanha anticurda, oficializada em 1986 com o nome “Operação Anfal” do governo de Saddam Hussein, que só terminou em 1989. O objetivo era acabar com as aspirações de criar uma nação independente ou de permitir que os curdos se organizassem como uma etnia de cultura e língua próprias. As formas de repressão começaram com a expulsão dos curdos que viviam próximo das fronteiras com a Turquia e do Irão e a prisão de centenas e centenas de pessoas com base em acusações de atividades oposicionistas completaram o processo. Os curdos sofreram todo o tipo de violência durante este período: foram alvo de armas químicas e viram as suas cidades e vilas destruídas. Em novembro de 1987, cerca de 600 curdos que estavam presos foram mortos pelo estado iraquiano com o tálio, um metal pesado utilizado em veneno para ratos. Entre 15 e 19 de março de 1988, durante a campanha Anfal e no meio da guerra entre o Irão e o Iraque, os curdos sofreram um dos piores ataques à sua etnia. Em represália às forças iranianas, que tinham fornecido suporte militar aos rebeldes curdos, o Iraque lançou um ataque com armas químicas à cidade curda Halabja, naquela altura com cerca de 80 mil habitantes. Liderado por Ali Hassan Al-Majid – mais conhecido como Ali Químico e que fazia parte do governo de Saddam Hussein -, o ataque usou gás sarin, que ataca o sistema nervoso, e gás mostarda, que abre feridas quando entra em contacto com a pele. As mortes estão estimadas em 10 mil.

Em junho de 1989, mais de 2 mil curdos foram envenenados da mesma maneira em Mardim e, em janeiro de 1990, outros 400 morreram na cidade de Diyarbakir. A violência começou a parar apenas em 1991 quando uma “zona de exclusão aérea” foi estabelecida pelo Conselho de Segurança da ONU, o que facilitou o regresso de refugiados e a obtenção real da autonomia do Curdistão Iraquiano.

A 17 de outrubro de 2016, por primeira vez, os pershmerga curdos uniram-se às forças militares iraquianas na luta contra o DAESH. Mas há muito em jogo na questão territorial, como por exemplo a questão da reclamada cidade curda de Kirkuk onde, por primeira vez na semana passada e depois de muitíssimo tempo, se voltou a hastear a bandeira curda em atos oficiais para visível descontentamento de Bagdad. A saga segue dentro de momentos…

– sem revisão de texto para poder ser publicado atempadamente –

 

 

# 11. Com paixão pela dignidade de todos nós

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Numa época onde  se destacam claramente dois modos de entender a Vida e o Mundo, desejo declarar aquele onde me integro e onde factualmente reconheço a possiblidade da vitória que leva à Paz nesta ‘guerra’ a que todos, de alguma forma, fomos ‘chamados’ a tomar parte e a combater, queiramos ou não.

Dois modos de entender a Vida, a História e o Mundo que até parecem proceder do mesmo desejo: VIVER, bem, em paz e em segurança. A mim parece-me que a promoção da confiança entre nós terá certamente mais êxito que a consideração daquele desconhecido como uma ameaça ou como alguém de quem tenho que me defender porque me provoca medo.

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Neste mundo em que nos querem fazer crer ser mais confuso e complexo do que na realidade é, onde se nos esconde a verdade com grande facilidade, mas que tem o condão de assim nos fazer sentir muito mais inseguros do que necessário, a dignidade intrínseca ao simples facto de existirmos parece estar totalmente omissa. Não conta para nada. A salvaguarda da nossa dignidade não conta muito.

A dignidade do ser humano é imortal! Não morre, não desaparece, não acaba, pelo simples facto de se a humilhar, torturar, maltratar, desprezar, abusar e até tentar roubar! Mesmo sendo tratado ‘abaixo de cão’, o ser humano que a carrega não deixa em nenhum momento de ter a sua dignidade. Em nenhum momento a perde.

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Outra enorme mentira é fazer-nos inconscientemente viver com a falsa ideia de que é possível que uns sejam mais dignos que outros. Como se a dignidade dependesse do poder, do estatuto ou do emprego que se tem. Com respeito à dignidade todos sabemos que ninguém é mais que ninguém, mas facilmente nos deixamos enrolar pela atmosfera cultural, mas invisível, que respiramos onde a dignidade se mede em categorias de poder e de contactos.

Assistimos a uma frequente e generalizada falta de respeito pela declaração universal dos direitos humanos e dos tratados internacionais por instituições  que os deviam garantir. Assistimos à redação duma História que parece estar a ser escrita ao sabor da ventoínha mais potente… No entanto, nós somos milhões de vezes mais ‘escritores’ do que estes ‘redactores invisíveis’ que não conseguimos identificar e pedir contas … A História também está a ser escrita todos os dias por qualquer um de nós.

Ninguém celebra as vidas dos que abusando do poder, que obsessivamente agarraram com as duas mãos por caminhos tortuosos ou não, pensam poder reduzir a dignidade a uma ‘coisa’, a um objeto que se pode desconsiderar. A História recorda-os como perigosos e criminosos e  avalia-os como «páginas negras» quando deles fala às novas gerações.

Pelo contrário, todos celebramos as vidas dos que usando o poder que lhes foi entregue pensaram a Humanidade a partir do respeito e da defesa da intocável dignidade de cada um e de todos nós, obrigando-os a dar a própria vida pela liberdade, pela justiça social e fraterna, pelo Bem (que para o ser só pode ser Comum). A História recorda-os como os heróis que venceram a escuridão do seu tempo e avalia-os com orgulho ao falar deles às jovens gerações.

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No passado dia 8 de março, por incrível que pareça, tive o privilégio, a responsabilidade e a obrigação de participar e pôr em ação a palavra «advogar» da declaração da missão do JRS em defesa de duas mulheres. No mesmo dia em lugares diferentes. Correu bem.

À noite, ao parar 15 minutos e repassar o dia, tive mais uma vez a certeza de que o poder da compaixão é enorme! Não deriva da humilhação de ninguém, mas da verdade e da com-paixão no agir, sem recuar, pela vida justa em todos e pela defesa da dignidade de cada um.

Que longe está a palavra compaixão da noção de pena! Compaixão é uma palavra perigosa que de braço dado com a palavra dignidade obriga a implicar o nosso rotineiro dia a dia para que todos possam ter a vida ajustada ao que são: imensamente dignos!

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