# 17. Narrativas [cap. 2º]: Gente de Natal

Envolto em panos

Faltam 6 dias para o Natal! O espírito que nos envolve parece querer fazer-nos ‘nascer’ de novo, regressar às origens do que somos, regressar à bondade, à simplicidade, à fraternidade. No tempo em que aquilo que é Eterno se quer fazer Terra, aumenta em nós o desejo de ser eternidade, de sermos bons. Desejamos agarrar o tempo e enchê-lo com o que é divino, com o melhor de nós. No Natal, Céu e Terra confundem-se. Não há limites, nem muros, nem barreiras. A barreira do tempo cai:  com o Natal, com o nascimento de Jesus, Céu e Terra confundem-se.

A verdadeira gruta de Belém é o coração de cada um de nós, quantas vezes às escuras, fora da ‘cidade’ do nosso quotidiano, com acessos difíceis para lá chegar… Neste tempo de Natal arriscamo-nos espontaneamente a entrar nesta gruta que levamos dentro. Um caminho que em mim tem dado resultado para lá chegar é aquele de honrar quem me faz bem! Honrar a ‘minha’ gente de Natal! Estando deste lado do mundo, entre deslocados e refugiados, estou no meio daqueles que se assemelham aos pastores que são capazes de ouvir os anjos cantar “Paz na terra” e esperar para além do imediato.

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Algumas semanas atrás, no tempo da apanha do tomate, quis comprar uma caixa para poder fazer tomatada que me durasse o inverno. Um dia, ao ver um grupo de pessoas na apanha, parei o carro junto à estrada e aproximei-me para ver se lhes podia comprar a caixa diretamente. O grupo era uma família yazidi IDP que tinha arrendado aquele pequeno terreno e estava agora a recolher o fruto do seu trabalho. Sorriso para cá, sorriso para lá, acabámos a tirar fotografias uns aos outros com os telemóveis. Lá comprei uma caixa, despedimo-nos como se fossemos amigos de há longa data e no caminho para casa entrou-me uma enorme vontade de imprimir aquelas fotografias e voltar lá no dia seguinte.

Assim fiz. Não consigo descrever por palavras a surpresa, a alegria, a festa que os encheu quando entreguei a cada um várias cópias de fotografias onde entravam! Não dá para descrever! Despedimo-nos marcados para a vida apesar de só nos termos conhecido à beira da estrada. No dia seguinte partiam para outro sitio. Quando cheguei a casa, emocionei-me profundamente e não consegui conter as lágrimas. Não me dei conta de nada, mas enquanto ríamos e víamos as fotografias, um deles pôs outra caixa na mala do carro. Apesar de saber que não valia a pena, no dia seguinte, fui ter com eles. Como era de prever não estavam… entrei pela plantação a dentro, já sem nada para apanhar, e ali no meio daquele verde, ao lembrar-me do filme Campo de Sonhos, desejei que aquela família conseguisse alcançar os sonhos que tivesse.

Deraloq fica longe! Fica a uma hora de Araden. Vive lá uma grande comunidade de refugiados sírios. Da última vez, fui com as nossas equipas fazer visitas.  Encontramos uma família constituída por avós e 3 netos que vivia num abrigo sem portas, nem janelas com um ‘telhado’ feito de lona, junto ao gerador da vila! O fumo e o barulho cada vez que o gerador funcionava eram insuportáveis!

Durante o tempo que estivemos com os avós e uma pequena neta, o gerador não parou de funcionar… a tom da conversa foi aos gritos, apesar de ser mais do que amigável, e o ar que respirámos encheu-nos a garganta com o sabor do cheiro do gasóleo! Contaram-nos que se tinham mudado para ali há ano e meio… A pequenita, com sete anos, não ía à escola… histórias familiares complicadas que tentámos mediar para que a criança toda espevitada que conhecemos pudesse usufruir do direito à escolaridade obrigatória…

No dia seguinte, regressei a Deraloq com o Sardar. Não consegui dormir naquela noite… Chegámos lá às 10h e às 14h30 as portas estavam a ser colocadas. Não só a da rua como as de dois quartos. A avó sentou-se a observar tudo enquanto as colocavam, sentei-me ao lado dela… olhou para mim com uma expressão de puro agradecimento… agarrou-me o rosto com as suas mãos ásperas e frias e fez-me duas, três, quatro festas… Enquanto que a expressão do seu rosto adquiria um olhar de ‘que descanso!’ e de uma espécie de porto abrigo, de paz, o meu ‘coração’ enchia-se de vergonha e de silêncio. Como é possível permitirmos tantíssima desigualdade entre nós e continuarmos os mais sortudos a viver descansados? Uma semana depois a pequenita espevitada unia-se  toda contente aos seus irmãos a caminho da escola com a mochila às costas.

Nessa mesma vila, vive outra família refugiada síria. Pai, mãe e cinco filhos. A filha mais velha é portadora duma deficiência mental e o ter estado sobre constante bombardeiros durante mais de dois anos na Síria tornou-a muito assustadiça e medrosa. Dificilmente olha de frente as pessoas que não pertencem ao núcleo restrito da sua família. Durante a visita, o pai, sem nunca deixar de falar connosco, cada vez que uma das duas pequenitas fazia alguma pequena coisa, olhava-as com uma tal quantidade de amor que me impressionou! Sem se mexer, sem deixar de nos responder, simplesmente seguia-as com um olhar de profundo amor.

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Ao princípio, pensei que a mãe fosse só extremamente magra. Não é incomum por aqui! Os refugiados sírios padecem dificuldades acrescidas já que o governo curdo não lhes permite ter um emprego. Vão sobrevivendo com a pouca assistência que recebem e pequenos biscates que conseguem encontrar. Ao agarrar a chávena de chá que me oferecia, reparei que os ossos das suas magras mãos estavam deformados… Sofre de reumatismo agudo, não vê um médico há quase dois anos, continua a tomar a medicação que então lhe receitaram sempre que têm dinheiro para a comprar. O marido diz-nos que a mulher é a pessoa mais importante da sua vida! … e cada vez que ela não se consegue levantar de manhã por causa das dores, ele não só não pode ir trabalhar se tiver encontrado um biscate, porque tem que ficar a tomar conta dela e das crianças, como ‘parece que sente as dores que ela tem e não as aguenta’. O inverno nestas montanhas é muitíssimo duro! Facilmente chegamos aos 15 graus negativos. Continuo sem conseguir perceber como é que aguentam naqueles abrigos feitos de blocos de cimento onde o frio e a humidade são rei e raínha no seu palácio! Mesmo que tivessem médico especialista a quem recorrer era-lhes impossível ir à consulta por não terem dinheiro para o transporte. É muito caro! E comprar os medicamentos é muito dispensioso. Como não há farmácia, paga-se a um motorista para que os compre em Dohuk e os traga. Entretanto, e enquanto o pai toma conta das crianças, a mãe já veio três vezes à consulta dum especialista em Dohuk, a medicação já foi reajustada, e confirmada após ela a estar a tomar durante uma semana, e ao amor que enchia o ambiente naquela família juntou-se uma grande pitada de esperança antes de o Inverno chegar.

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Mais longe do que Deraloq fica Sheladze. Também aí encontramos refugiados sírios e não deslocados de outras zonas do Iraque. Para lá chegar precisamos de hora e meia de carro. Nas visitas que fomos fazendo percebemos que muitos deles estavam realmente interessados em aprender inglês. Tínhamos que tentar encontrar um professor e um sítio onde montar uma ‘sala de aula’. Encontramos primeiro o professor. Um jovem refugiado sírio, licenciado em Inglês pela Universidade de Damasco, com um notório amor pela língua e pelo ensino, mas desde o momento em que fugiu e atravessou a fronteira tem feito de tudo menos dar aulas de inglês. Agora faltava encontrar o sítio! Um senhor, cristão, que já tinha ali acolhido uma família síria durante mais dum ano, ofereceu-nos o espaço, comentando-nos que não fazia mais do que a sua obrigação! Depois de termos dado um pequeno ‘toque’ no que se transformou em sala de aula, as aulas de inglês vão começar no próximo dia 7 de janeiro para dois grupos de 20 pessoas.

Não são só os adultos que percebem o valor da educação. Admiração e carinho foi o que senti quando uma rapariga de 16 anos, deslocada e yazidi, veio ter connosco a pedir se lhe podíamos comprar o uniforme. Não podia continuar a ir à escola porque não tinha uniforme. Quando lhe perguntei se tinha irmãos. Disse-me que tinha uma irmã. Perguntei-lhe se também  ela não estava a ir à escola. Respondeu-me que estava a ir porque a sua irmã tinha uma amiga que ia no horário da manhã e que como o dela era de tarde tinham combinado que assim que a amiga regressava das aulas despia o uniforme, ela vestia-o e seguia para a escola! … Mas ela não podia fazer o mesmo porque não tinha uma amiga com quem pudesse combinar este esquema. Todas as suas amigas frequentavam também o horário de tarde. Ambas as irmãs quiseram fotografar-se com os seus novos uniformes ‘pessoais’ e, possivelmente, transmissíveis se houver alguma rapariga que não o tenha e frequente o horário da manhã!

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Termino com uma visita que fiz e foi como se tivesse estado em casa, junto aos meus. Muitas das famílias yazidi que acompanhávamos em Iniske mudaram-se para o Campo de Daudia. Uma dessas famílias convidou-nos para a visitar por ocasião da celebração do primeiro aniversário do falecimento dum irmão, peshmerga, morto em combate dois meses depois de se ter casado. O campo é constituído por inúmeros contentores  como se de um enorme estaleiro se tratasse. Há muito tempo que não passava um sábado tão ‘bom’! Fomos acolhidos como se de membros de família se tratasse. Contaram-se histórias de dor e de alegria, partilharam-se fotografias, também daqueles membros da família  raptados pelo DAESH e que ninguém sabe onde estão, provocaram-se as crianças para que nos enchessem de vida, conhecemos os membros alargados da família que também ali estavam para celebrar a memória daquele familiar e irmão. Não nos deixaram partir sem almoçar com eles.

Agradeceram-nos a visita como se fossemos Reis vindos do Oriente, mas no nosso coração o que experimentavamos era a pequenez que ‘real’mente somos diante da grandeza e dignidade que eles possuem apesar de viver em ‘grutas’ escuras fora da cidade!

Penso que ninguém o tentará negar, há gente de Natal aos montes por esse Mundo fora! A todos: Feliz Natal! Feliz Ano Novo!

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