# 16. 4 meses numa única crónica

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Não escrevo há tanto tempo que foi dificil encontrar a melhor forma de retomar aquilo que, para mim, começa a ganhar peso de memória futura. Aconteceram muitas e variadas coisas cujo denominador comum é o de terem sido, serem, significativas. Pelo menos foi assim que as vivi e é assim que as considero.

Uma das mais relevantes foi termos organizado aulas de apoio para os alunos de 12º ano da escola Al-Etihad durante os meses de maio e junho. O nome Etihad corresponde à palavra árabe «união» (الإتّحاد al-ittiḥād). Durante a manhã, esta escola funciona com o currículo do Curdistão para os alunos da região. Mas, de tarde as salas são ocupadas  por crianças e jovens deslocados e o currículo que se administra é o do Iraque, do governo central. A finais de abril, este ano foi a 26, o ano letivo termina para os alunos do 12ºano esperando que estes fiquem em casa a preparar-se para os exames nacionais que começam a inícios de julho e lhes permitirá entrar ou não na universidade.

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Ora, não é preciso ter o bichinho da educação no coração, como tenho, para ter por adquirido que os alunos que tenham mais dificuldades vão ter dois meses muito, muito difíceis e vão ser tentados muito facilmente a desistir das horas de estudo pessoal que se propuseram. Assim, fomos ter com a escola e com o seu claustro de professores oferecendo-nos para os apoiar. A relação de parceria foi extraordinária!

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Conseguiram da Delegação de Mosul do Ministério de Educação, com sede temporária em Dohuk – Curdistão por causa do DAESH, a autorização para a realização de aulas extraordinárias de reforço em três das matérias mais difíceis para os alunos: árabe, matemática, inglês.

Uma das dificuldades acrescidas para as crianças e jovens de famílias deslocadas é a qualidade do ensino. É difícil ter acesso a bons professores, a manuais, etc. Foi o que aconteceu com estes 56 alunos a quem pudemos dar a mão. Os professores que tiveram durante os últimos três anos ‘foi aquilo que se arranjou’. Conseguimos encontrar 3 muito bons professores em Dohuk que se dispuseram a ir três vezes por semana a Sersink – 50 km de distância – onde fica a escola Al-Etihad e trabalhar intensamente com aqueles 56  raparigas e rapazes deslocados – muçulmanos, yazidi e cristãos.

Sem o querermos, também estes professores professavam religiões diferentes: o prof. de Árabe era muçulmano, o prof. de Matemática yazidi e a profª de Inglês cristã. Naquilo que temos realizado, as sessões e sensibilizações de Peace-Building and Reconciliation acontecem na vida do dia-a-dia, enquanto se espera que os políticos se ponham de acordo e estimem mais a vida dos seus do que outros interesses quaisquer que eles sejam. Desculpem, foi um desabafo. Do que me tem sido dado viver afirmo que a gente comum tem um coração muito mais magnânime do que nos querem fazer crer.

Foram dois meses de enorme vida, trabalho, alegria e dedicação! A verdade é que no início, havia uma certa preguiça e desinteresse por parte da maioria dos alunos, mas com o decorrer das aulas dadas por estes três professores extraordinários, tanto na matéria como como pessoas, a vontade de se apresentarem preparados a exame começou a tomar conta deles! O ambiente, cada vez que os visitava, era de trabalho e de coragem! Um desses alunos escreveu: “We thank you very much for your support to us and to our studies. We thank the professors for their efforts and support for us morally and drastically. Perhaps we will not have a chance like this again. But thanks to them we had it now and we surpassed our capacity for studying. We have a new hope in having success now and also in our future life. Thank you So much.”.

Quando no último dia nos despedimos o nervosismo era visível nos seus rostos e sentíamos neles o intenso desejo não só de passar mas de alcançar boas notas. Encheram-me com um obrigado sentido em maiúsculas em cada aperto de mão e abraço que me deram ao desejar-lhes ‘boa sorte!’. Os três magníficos professores não paravam de agradecer termos feito isto por estes jovens quando a única coisa que nós sentíamos era exatamente ao contrário: que privilégio termos podido acompanhar, servir e defender com tão pouco… Um desses professores escreveu na avaliação que fizemos: “JRS provou que humanidade e bom trabalho são a base da Vida”.  Como escrevo tantos meses depois posso dizer que os resultados dos exames já saíram. Não tem um final totalmente feliz, mas é sem dúvida muito, mas muito mais feliz do que o do ano passado.

A finais de Junho e no início de Agosto tivemos em Sharia e em Araden respetivamente as Graduation Ceremonies para todos aqueles adultos que frequentaram com distinção (!) os diferentes cursos de life-skills. No total foram 265 pessoas que receberam os certificados correspondentes à aquisição de conhecimentos que alcançaram! Não é dificil perceber que o valor daquele pedaço de papel representa muito mais do que os 3 meses de formação e as 6 horas por semana.

Aprender sem já ter idade para ir à escola, sair do abrigo que se transformou com o tempo numa toca, voltar a sentir a dignidade de ser gente, rir com vontade na companhia descontraida que se foi cirando com os colegas e com os instrutores, partilhar episódios de vida e de dor que todos conhecem, transmitir uns aos outros a força que vem duma esperança indelével que não se vê… como a fé… De tudo isto fui testemunha e foi tudo isto que celebramos no dia em que chamamos cada um pelo nome  e lhes entregámos com alegria o mais que merecido diploma.

E, de novo,  durante aquela tarde de festa venceram juntos os traumas, as angustias e os monstros que os assombram, dançando juntos (e eu com eles, que nunca danço!) até ser hora de regressar ‘a casa’ em amena cavaqueira.

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Vai longa esta crónica mas não posso terminar sem antes falar do referendo que aconteceu no dia 25 de setembro em todo o curdistão iraquiano. Desde sempre que o Curdistão tem anseios de ser independente. Lembro-me de quando conheci os primeiros curdos. Eram refugiados na Austria e deles fiquei grande amiga. Estávamos em 1979 e contaram-me o quão perseguidos e torturados eram por Saddam Hussein, sem direito a falar a própria língua, a celebrar a suas festas e costumes e a regularem a sua própria vida e região. Com a queda de Saddam conquistaram o direito a ser uma região autónoma. Região onde o DAESH nunca conseguiu entrar e para onde escaparam quase dois milhões de deslocados da planície de Ninive, de Mosul, de Qaraqosh, etc.

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O desejo sempre foi a independência e um ano depois de, por primeira vez na sua história,  se terem unido ao exército regular iraquiano para derrotar o DAESH e libertar o território do seu dominio, o presidente desta região autónoma, Masoud Bazarni, decidiu convocar um referendo sobre a independência do Curdistão. O partido no poder, o segundo maior partido e os pequenos partidos de minorias como a cristã, turcomanos, yazidi, manifestaram-se a favor e o maior partido na oposição considerou que não era o momento oportuno de o fazer, “No for Now”.

O ambiente nesta cidade onde vivo nas duas semanas anteriores ao 25.09 foi impressionante na quantidade de cartazes, outodoors, manifestações, buzinadelas e cortejos a favor do sim. O parlamento curdo, que não tinha sessão há mais de dois anos, reuniu e aprovou a sua realização. Iraque e países vizinhos não só condenaram a sua realização como anunciaram medidas ‘punitivas’. A comunidade internacional referiu que não era altura de criar algum tipo de tensão neste momento em que todos deviam estar centrados em vencer o DAESH. E apesar de tudo isto, o referendo foi avante. Dizem os curdos: “Todos nos querem como aliados em alturas de perigo, mas os curdos só temos as montanhas como amigos!”. O líder do partido da oposição no dia 25.09 depois de ter votado deu a conhecer que tinha vontado Sim. 76% da população foi às urnas. 93,6% disse sim.

Nesse dia, vinha de Araden e parei em Zawita onde uma multidão esperava para votar. Perguntei  a um dos polícias se podia fotografar. Disse-me que sim e perguntou-me se queria entrar e ver as mesas de voto etc.  Sem duvidar respondi-lhe imediatamente que sim! Lá dentro todos queriam que eu visse tudo! Que fizesse chegar ao meu país que tudo estava a ser realizado com a maior da seriedade e controlo.

Falei com algumas pessoas, jovens, adultos, anciãos… a vontade de poderem expressar o que querem provacava-lhes uma enorme alegria, apesar de saberem que essa independência não chegaria tão depressa. Fez-me impressão uma conversa que tive em Zawita com duas senhoras idosas: “Sofremos a vida toda, muito. Mas ainda vivemos para votar neste dia!”, e sorrindo mostravam-me os seus dedos indicadores manchados de tinta. Três dias depois do anúncio dos resultados, o governo central de Bagdade proibiu os voos internacionais para a região autónoma do Curdistão. A pressão e a tensão parecem estar num jogo de estica-encolhe… enquanto que a vida quotidiana silenciosamente continua.

Para quem chegou até aqui, que é o fim: os meus parabéns!

 

 

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18 pensamentos sobre “# 16. 4 meses numa única crónica

  1. Nós é que damos os parabéns, pela alegria que transmite no que faz e no que escreve, pela paciência de partilhar connosco todas essas vivências e essas realidades que nos parecem tão distantes e nos fazem relativizar as “coisinhas” do dia a dia! PARABÉNS, Irene e, como ser humano que sou, um grande muito obrigada pela sua humanidade.

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  2. Bom dia Irmã Irene,
    Já tinha saudades de ler as suas crónicas. Para 4 meses de abstinência, esta é bastante curta :):):) por isso foi num ápice que cheguei ao fim. Quem efectivamente está de Parabéns é a Irmã Irene e toda a equipa da JRS e de quem congregam.
    Desejo e rezo para que continue a sua missão com a força, perseverança e coragem que a caracterizam.
    Um abraço, Afonso

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  3. Querida Irene… obrigada e muito! Este teu depoimento é valiosíssimo. Tu estás aí! Tu vês, tu sentes, tu percebes o que para nós é distante e chega de formas tão “maquilhadas”.
    No mínimo… ficamos a pensar…
    Beijo enorme.

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